quarta-feira, novembro 10, 2010

O Ocaso dos Anjos ( introdução)

Esta é uma obra iniciada e ainda inacabada, a qual apresento a introdução. Espero ianda este ano encerrá-la.


Faço a abertura com um poema de Olavo Bilac - pertinente como poucos à conduta humana.
" Não és bom, nem és mau: és triste e humano...
Vives ansiando, em maldições e preces 
Como se a arder no coração tivesses
O tumulto e o clamor de um largo oceano.
Pobre, no bem como no mal padeces;
E rolando num vórtice insano,
Oscilas entre a crença e o desengano,
Entre esperanças e desinteresses.
Capaz de horrores e de ações sublimes,
Não ficas com as virtudes satisfeito,
Nem te arrependes, infeliz, dos crimes:
E no perpétuo ideal que te devora,
Residem juntamente no teu peito
Um demônio que ruge e um deus que chora.
(Olavo Bilac)

. . . . . . . . .
Muitas vezes em minha vida optei pela descrença. Julguei e condenei qualquer coisa em que não fosse possível um mínimo de lógica, decretando ao Criador, como se poder tivesse para decretar tal coisa, absoluto objeto da fé de uns, fanatismo de outros e necessidade absoluta da maioria esmagadora que criava seus próprios deuses para satisfazerem seus desejos inalcançáveis. Se por este método não resolvia, na pior das hipóteses, dava-lhes força para esperar o milagre, que via de regra não acontecia, facilitando-lhes o convívio com a dor e preservando a esperança, fruto da fé, objeto finalista dos que crêem. Até porque os milagres que os homens querem estão sempre fora do alcance dos deuses, que na solidão de seu poder não conseguem, sem a cumplicidade destes tais necessitados, milagre algum fazer.
Nestas histórias de milagres e padecimentos, em que algumas são sagradas, a dor transita na mesma faixa da esperança, na contramão da fé e, na arredia falta de convicção de si mesmos, perambulamos todos nós, crédulos e incrédulos, no exercício diário de pagas e promessas, ora cumprindo-as, ora negociando com nossos deuses e demônios. Isto porque alguns deles, deuses ou demônios, terminam por operar milagres, satisfazendo desejos que por si mesmos conseguiriam suas criaturas se melhor acuidade tivessem no diligenciar de seus atos, onde, no mínimo, rendessem às suas divindades, ao fim do dia, os créditos de seus acertos e perdões pedissem pelos deméritos auferidos.
E foi assim que roguei a todos os deuses e demônios naquele momento de desespero, por não saber a qual deles servia meu assustador visitante, que um milagre ocorresse e aquela criatura pequenina e de formato angelical desaparecesse da minha frente, ou do meu lado, como de fato estava. O milagre não ocorreu, não porque me faltasse acuidade ou diligência, como sentenciei, mas por absoluta falta de impropriedade material. De fato estava ali o anjo. Eu e ele, disputando a mesma cama. Eu, de meu lado, temeroso. Ele, pelo que se via, muito mais interessado em chamar minha atenção.

A Propósito da Democracia

Caro Jornalista,

Sou um caboclo amazônida, nem mais nem menos entre tantos de formação étnica comprometida pela dolência de nossos ancestrais nativos, de índios (escravos) africanos, portugueses escravocratas e espanhóis ladrões. Nem mais, nem menos. A mim ainda foi agregado sangue turco – não sei se isto atenua ou agrava a minha sucessão genética.

O rugir de suas palavras representam todas as nossas outras contidas pela falta de espaço que você dispõe e dizem plenamente da nossa indignação. Para seu pezar e contentamento dos canalhas referenciados, infelizmente, nada significam. Mero discurso perdido entre tantos outros de igual valor e qualidade. Como no velho adágio, “os cães ladram e a carruagem passa”. Em nosso caso com uma mudança significativa: “os cães ladram, a carruagem para, joga algumas migalhas e passa”. Alguns cães, como nós, que vociferamos mais veementemente, aproveitam-se da breve parada para irrigar-lhes as rodas com nossa desprezível urina e com isto vangloriamos-nos garbosamente do feito.

Quão inútil somos!

Eis a democracia, meu caro jornalista: meu bem, meu mal. Ei-la, poderosa, na plenitude de seus mais profundos fundamentos, onde a maioria, no pleno exercício de seus direitos políticos elege seus governantes. O que não ficou claro na “criação de tal projeto”, a democracia, pelos nossos gregos de plantão à época deste antecipado iluminismo, é se no caso de tamanha e desqualificada maioria (nosso caso) , seriam os mesmos os princípios a serem seguidos. Hoje, distantes do princípio criador, na América do Sul, do lado de baixo do equador, no Brasil (quanta seqüência de azares demográficos), aquilo que deveria ser a mais perfeita manifestação de governabilidade transforma-se em cruel constatação de injustiças no desfilar diuturno dos escândalos palacianos.

Parece-me que a Revolução Francesa tem algo a nos ensinar. Mas onde estão Robespierre e Rousseau ? Quem vai nos defender deste real “massacre do Campo de Marte” a que estamos sendo conduzidos por esta sintonizada orquestra de nossos “Luiz XVI” ???? Não os vejo.

Eis, meu caro jornalista, a perpetuação da miséria humana, pela via do voto.

A propósito da perseverança. . .

A oração da SERENIDADE, dedicada aos dependentes químicos ( alcoólatras principalmente), tem grande significado também no mundo dos que têm outras dependências, como a insegurança - especialmente.

O texto abaixo é de grande ajuda para os que queiram seguir, com calma, perseverança e serenidade, estes ensinamentos, que a mim foram de grande e inestimável valia:

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Estes desabafos, via textos, nada de abstrato ou utópico contêm. Estas coisas podem sim ser alcançadas se percebidas a tempo. De que tempo falamos? Do seu tempo, daí precisar ser percebido na sua concepção. A mim, lamentavelmente, aconteceu muito depois do que busquei, mas, enfim, alcancei. Espero que pelo menos eu tenha me percebido precisando mudar. E mudanças se fazem pouco a pouco, pois são um estado permanente de crescimento.

Concedei-nos, Senhor, a serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar,coragem para modificar aquelas que podemos esabedoria para distinguir umas das outras.
O QUE É A SERENIDADE?

O termo é definido do varias maneiras: a calma, o sossego, a paz e tranqüilidade, a paz da mente, o equilíbrio emocional, o estado não perturbado, o sangue frio e o domínio de si. Contudo, do ponto do vista prático, talvez a melhor definição seria “a capacidade de viver em paz com os problemas não resolvidos".

A Oração da Serenidade fala em “aceitar as coisas que não podemos modificar”. A aceitação não deve ser confundida com a indiferença. A indiferença deixa de distinguir entre as coisas que podem e as que não podem ser mudadas. A indiferença paralisa a iniciativa. A aceitação libera a iniciativa, aliviando-a das cargas impossíveis. A aceitação é um ato do livre arbítrio, que para ser eficaz requer a coragem moral de se persistir apesar do problema imutável. A aceitação liberta o aceitante, rompendo-lhe as cadeias da autopiedade. Uma vez aceito o que não pode ser modificado, a gente fica livre para empenhar-se em novas atividades.

Foi dito que uma mente imatura procura um mundo idealístico. Queiramos ou não, precisamos encarar o mundo da realidade e aceitar a vida tal qual ela é, com todas as suas crueldades e inconsistências. Talvez, em ultima análise, o inicio da sabedoria esteja na simples admissão de que as coisas nem sempre são como queríamos que fossem. E que nós mesmos somos imperfeitos e não tão bondosos e trabalhadores quanto gostaríamos do ser.

No que crêem os homens, afinal ?

A propósito de uma matéria que foi apresentada na TV, o entrevistado, antropólogo, discorre sobre as crença e cultos à divindades e diz das diferenças regionais, estaduais e mesmo continentais e suas manifestações exatamente em face da cultura e do tempo.

Divaga o antropologista do budismo ao cristianismo, do islamismo ao judaísmo, entre outros, enfim, criando paralelos entre uma e outra religiões, cada uma em seu tempo e todas ao mesmo tempo pelas razões em si mesmas defendidas. Pareceu-me, assim vendo e ouvindo-o, que faltou algo de palpável nestas ditas manifestações de crenças do homem ao longo do tempo; algo que ultrapassasse a mera e discutível imaterialidade e fosse, além disto, buscar as razões destas ditas buscas humanas na sua relação com o divino no tocante a um tema de tamanha complexidade para muitos. A mim me parece de facílima compreensão o assunto. Já manifestei-me em outros momentos sobre este tema. É que ao longo do tempo amadurecemos estes pensamentos, lapidando-os, o que não significa dar melhor juízo de valor aos mesmos. Mudamos-lhes a cara nestas novas lapidações.

Ora, se voltarmos alguns milhares de anos, de economias outras, época das cavernas, da pedra lascada, das primeiras chamas, da primeira vez eretos sobre dois pés, perceberemos que tudo se resumia em procriar, caçar, pescar e colher frutos (não necessariamente nesta ordem). Plantar, colher e armazenar ainda era desconhecido, assim como não era usual criar animais em confinamento para o tempo das vacas e outras espécies magras, e as adversidades climáticas, como até hoje, não têm o domínio humano.

Ao longo do tempo as adversidades tomaram outras caras, trocaram de nome, e se o advento da agricultura trouxe possibilidades infinitas de produção estoque, passando pela inteligência que permitiu os transgênicos; se a melhoria genética permitiu não tão somente a criação em cativeiro mas a maior produção em menor tempo, infelizmente, desaprendemos os conceitos de comunidade, partilha e generosidade. Já eram outras as cavernas de hoje, movidas a energia nuclear.

Não importa quanto tempo a necessidade e dificuldades de possibilidades inalcançáveis existam nem em que nível ocorram. Não importa se é a caça que mudou de prado, se tivemos que inutilmente persegui-la; se os frutos não vieram e esperamos em vão a próxima safra. Não importa. Não importa se a bolsa de Nova York, quebrou; se o câncer não retrocede, se aquele esperado emprego não saiu. Não importa se foi no exame ao vestibular que a nota não foi suficiente, ou se o tempo não trouxe de volta quem se ama e que partiu para sempre.

Não importa.

Nestas circunstância adversas, todas, diante do inalcançável e da necessidade urgente da solução, nós, humanos, unicamente nós entre todas as espécies, exclusivamente aquela criada a imagem e semelhança do Criador, recorremos ao imaginário, ao poderoso imaginário, na busca de um milagre. Foi assim que pedimos chuvas ao deus trovão, na fome da ausência da colheita, nas danças noturnas à luz das fogueiras e ao som dos maracás; foi assim que imolamos inocentes ovelhas em oferenda aos deuses da caça. E eram muitos os deuses e muitas as oferendas. Terminamos por criar algo superior, uno, que a tudo atendia, que tudo podia, que tudo sabia, que tudo via. Precisávamos da onipresença, da onipotência e da onisciência que nos permitisse, dentro de um acordo de eterna fidelidade, o alcance daquelas ditas soluções inalcançáveis.

Nestas histórias de milagres e padecimentos, em que algumas são sagradas, a dor transita na mesma faixa da esperança, na contramão da fé e na arredia falta de convicção de si mesmos, perambulamos todos nós, crédulos e incrédulos, no exercício diário de pagas e promessas, ora cumprindo-as, ora negociando com nossos deuses e demônios. Isto porque alguns deles, deuses ou demônios, terminam por operar milagres, satisfazendo desejos que por si mesmos conseguiriam suas criaturas se melhor acuidade tivessem no diligenciar de seus atos.

Nos últimos 20 séculos, em nome da perpetuação desta proteção cometemos os mais bárbaros crimes: queimamos, crucificamos, degolamos, torturamos, escravizamos, enfim, cometemos toda uma sorte de atrocidades em nome deste deus. Criamos as indulgências e a inquisição. Fizemos a apropriação contábil do dízimo e construímos templos. Civilizamo-nos, finalmente, e criamos sub-grupos de fiéis de um mesmo e único Deus. Continuamos construindo templos, majestosos, ornados de ouro, enquanto milhares de humanos morrem ao tempo de fome e frio.

Mas a verdade, a grande verdade, é que estamos sós. Desesperadamente sós coexistindo, coabitando e convivendo com nossas crendices, superstições e medos; buscando no imensurável, impalpável e imaterial o consolo final, diante da morte, certeza absoluta, que chegará, mais tempo menos tempo, de malas prontas para a viagem derradeira.

Estamos sós na ausência da generosidade, da bondade, da justiça justa e da caridade humanas. Meu preferido autor - José Saramago – constitui estas premissas em verdadeira lição de sabedoria: “ se a mim me mandassem dispor por ordem de precedência a caridade a justiça e a bondade, daria primeiro lugar a bondade, o segundo à justiça e o terceiro à caridade. Porque a bondade, por si só, já dispensa a justiça e a caridade, porque a justiça justa já contém e si caridade suficiente. A caridade é o que resta quando não há bondade nem justiça”.

É desta solidão, e nesta solidão, e por esta solidão que criamos nossos deuses na ausência da solidariedade que bastar-se-ia em si mesma para que de milagre algum necessitássemos. Tudo estaria justo e perfeito na continuidade da felicidade humana.

A propósito dos astros e sua relação com as crendices humanas. . .

Para responder com mais propriedade ao tema, vou poupar o discurso novo e valer-me, nada mais nada menos, de WILLIAM SHAKESPEARE - em Rei Lear. Anos e anos depois, nada de mais verdeiro há:

"Essa é a maravilhosa tolice do mundo: quando as coisas não nos correm bem — muitas vezes por culpa de nossos próprios excessos — pomos a culpa de nossos desastres no sol, na lua e nas estrelas, como se fôssemos celerados por necessidade, tolos por compulsão celeste, velhacos, ladrões e traidores pelo predomínio das esferas; bêbedos, mentirosos e adúlteros, pela obediência forçosa a influências planetárias, sendo toda nossa ruindade atribuída à influência divina... Ótima escapatória para o homem, esse mestre da devassidão, responsabilizar as estrelas por sua natureza de bode. Meu pai se juntou à minha mãe sob a cauda do Dragão e minha natividade se deu sob a Grande Ursa: de onde se segue que eu tenho de ser violento e lascivo. Pelo pé de Deus! Eu teria sido o que sou, ainda que a mais virginal estrela do firmamento houvesse piscado por ocasião de minha bastardização.

Algo a comentar ????

A Imagem da Copa

O beijo do Capitão Iker Casillas na repórter (e namorada) Sara
Carbonero, sem dúvida me fascinou. Quase adolescente, meio pueril, palavra alguma seria lembrada com tamanha imposição de valores; uma mistura frenética de furto e ousadia. Inesperado; uma profunda demonstração de amor de mais sublime beleza. Nada mais poderia ser dito depois de tamanha manifestação de carinho que aquele beijo representará, para sempre, para o povo Espanhol.

Casillas, você transgrediu magnificamente todas as regras ao criar esta magnífica cena que, a mim, brasileiro, ficará marcada para sempre. Nem a taça erguida por seus braços de Capitão será lembrada com tamanha graça e leveza.

Hasta la vista fúria !

terça-feira, novembro 02, 2010

DILMA - O que esperar ?

DILMA - O que esperar ? Espero que dê certo - realidade ou ficção ?

DILMA não tem histórico que justifique ser PRESIDENTA (como ela mesma se intitula) do Brasil. COLLOR também não tinha - mesmo tendo um passado politico-partidário mais real que DILMA. COLLOR não deu certo e foi afastado do cargo. O que se tem de desvalor no passado de DILMA é a tal história da guerrilha ( ?????) ; da sua falta de habilidade política (!!!!) ; da falta de experiência enquanto gestora (!!!!!), enfim, DILMA não tem passado que justifique o cargo para o qual foi eleita. Coisa de brasileiro que não sabe votar (como dizia PELÉ - não sei se ainda o diz hoje). DILMA é fruto do LULA que por sua vez é fruto de um povo desqualificado pra votar. Mas o LULA deu certo porque é honesto; porque soube dar continudiade e agregar valor às prostas de governo do presidente que o antecedeu - o FHC. Estas premissas indicam que LULA estará por perto - pois o fruto está sempre perto da árvore; que o PMDB (que não é grande coisa) também estará por perto na pessoa de seu VICE - o ... ops - esqueci o nome do VICE - ah! tá, o TEMER (com um dois "emes"?). Então me parece que a DILMA não está sozinha e nem mal acompanhada. Portanto não tenho medo e pra contrariar a Regina (Duarte - aquela da novela) tenho esperanças.

Bem, se não der certo, se ela - a DILMA - enveredar pelos caminhos do COLLOR - pela mesma via ou por vias indiretas, nós -  O POVO BRASILEIRO - com ou sem as caras pintadas, vamos mandá-la de volta pro seu lugar de direito - a ESQUERDA, não sei de quem. Provavelmente para um destes grupos de "sem terras" que é o mais próximo que se tem das guerrilhas de seu passado.

DILMA - quero que você de certo como PRESIDENTA ou como PRESIDENTE do Brasil. Sou apenas um cidadão deste longínquo torrão (de terra - poderia ser de outra coisa), a Amazônia; sou do PARÁ, até então governada por uma sua companheira de saias e convicções ( a CAREPA) e absolutamente desamparado de governante (desculpa - e de vice-governante).

Juro que estou tranquilo agora. Temos um vice de vergonha (espero que não nos envergonhe no futuro) - o HELENILSON e um governador - o JATENE - que também tenho esperanças. . . aqui se vive de esperanças; de longas esperas. A propaganda da CAREPA vivia apregoando aos quantro cantos de Santarém que o JATENE só sabe pescar. Tomara que saiba mesmo. Venha pra cá JATENE. Monte um governo itinerante sobre um canoa, aqui noTapajós, e joge sua isca n'água. Será melhor que a ausência da DAMA DE VERMELHO que ao longo destes anos só deu a cara por aqui para pedir votos, desmerecidos. E não é que levou, e muitos !!!!

Sucesso para a Sra. DILMA e para o Sr. JATENE !

quinta-feira, junho 03, 2010

Encanto

EncantoBy Pedro Paulo Buchalle . . . pra Mira com CARINHO !  


Durmo suspirando tua distância. . .

..."Quisera bastar-me em mim no penar que me consome,
A cada vez que tuas carícias são sentidas
No turbilhão de saudades que é teu nome.

A este frenesi de aromas acompanha
Perfume e vinho despercebidos
A se misturar aos meus desejos,
E na procura ansiosa de teus beijos,
Vejo teus seios desenhados e perdidos
Nas curvas desnudas da montanha.

Acordo aspirando tua lembrança" . . .

PARAGEM


Segunda-feira, Agosto 07, 2006


PARAGEM by pedro paulo

Eu vou para um lugar em que eu
Possa fazer nascer rios de lágrimas
Sem que precise estar triste.
Vou deitar cansado no fim de um
Dia cheio de sonhos
No fim de uma praia qualquer
E assistir ao sol se por mais uma vez.

Vou olhar nos olhos dos rostos
Morenos queimados de sol
E falar de chuvas, de secas e
Dos cardumes de peixes
Que nas manhãs de agosto saem no baixo
Do lago que sobe o rio.

Vou misturar abraços em
Braços que margeiam lábios que
Por tudo neste mundo sorriem
Com graça. Vou ficar calado.
Vou mirar a boca que faz
Do corpo um sorriso todo
Parecer criança e beijar a
Certeza de que é eterno.

Extremos

Extremos

Quando te falo em carinho
Tiro da rosa o espinho
Pra te dar somente a flor.
Quando te falo de beijo
Da boca tiro o desejo
Pra te dar somente amor.

Mas se desejos e espinhos
Se misturam entre os carinhos
Quando te falo de amor,
É porque desejos e espinhos
Fazem parte do caminho
De quem te doou a flor.

Benção Cabocla

Benção Cabocla - By Pedro Paulo Buchalle


Benção CaboclaBy Pedro Paulo Buchalle Silva

Nascerás, e do nascer ao poente da vida estarás condenado a ser feliz as margens de um rio que será azul pela manhã, cor de fogo ao entardecer e prateado nas noites de luar.
Tua morada será a exuberância da floresta e te alimentarás com o que produzires com o suor do teu rosto.
A infelicidade somente será possível se travares desigual luta contigo mesmo por não aceitares esta dita felicidade a que estás condenado.

Viverás plenamente, e nada adiantará manteres fechada à janela pela manhã, ou que nuvens negras encubram os céus.
O sol nascerá e irá se por, assim mesmo, independente da tua vontade e te invadirá pelas frestas do tapiri.
E por mais que insistas em não levantar a maromba porque não há chuvas, as águas de março vão subir e te molharão os pés.
E mesmo que varras o chão as folhas de setembro cairão das árvores, uma a uma, até outro broto nascer.

Gozarás do anoitecer de agosto a lua que rompe cheia, clara e nua nos céus como igual em nenhum outro mês nascerá.
O pitiú e o rebujo do cardume de aracús te fará arremessar a tarrafa certeira enquanto sobem à praia do rio de prata os tracajás.
Dormirás ao relento nestas noites de piracaias inesquecíveis e ao luar acordarás com o vento quente da madrugada ao som dos bem-te-vis.

Amarás, com tamanho desejo e ternura que tuas noites terão sempre o aconchego de peles morenas e cabelos negros, sedosos, cheirosos de paticholin.
E por este mesmo amor tanto te darás e com tamanho ardor nele te consumirás, que com ele estarás na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, até que um novo encontro se faça na eternidade.

Multiplicar-te-ás no amor que te chama, pois eterno, e nele conceberás tua prole sem temeres o desejo ardente que o corpo na rede ao lado reclama.
Como os pássaros serão os teus, livres para remar ou cavalgar na imensidão das várzeas e terras-firmes e aprenderão contigo que a perpetuação da espécie é mais que reprodução de genes, é virtude que se passa adiante na generosidade, fraternidade e recíproca com o outro na multiplicação do moquém embebido de malagueta e tucupi.

Morrerás no ocaso dos anos e sob teus cabelos brancos restarão eternas lembranças.
Destas, levarás contigo a certeza da generosidade da terra, do rio e da floresta que te alimentou, te alegrou e te deu teto durante anos a fio.
Nesta mesma terra serás sepultado te tornando alimento para novas árvores que nascerão e que produzirão frutos que servirão aos pássaros dos céus e aos animais da floresta.

Afinidade & Necessidade: A regra da Igualdade desmistificada.

Afinidade & Necessidade: A regra da Igualdade desmistificada.

Por Pedro Paulo Buchalle
M.’. M.’. Loja Fir.’. e Har.’. Santarena n°. 17


Duas únicas razões, juntas ou separadamente, é que justificam as relações: A afinidade e a Necessidade.

De acordo com a língua portuguesa, tecnicamente, afinidade significa Relação, semelhança, analogia; semelhança entre duas ou mais espécies; conformidade, identidade, igualdade: afinidade de gostos. Tendência combinatória; coincidência de gostos ou de sentimentos. Necessidade, diferentemente, têm-se inclusive a sensação de opostos, significa qualidade ou caráter de necessário. Aquilo que é absolutamente necessário; exigência; aquilo que é inevitável, fatal; aquilo que constrange, compele ou obriga de modo absoluto; privação dos bens necessários; indigência, míngua, pobreza.

A princípio não temos escolhas, por regra geral; nascemos e não pedimos isto. A família que nos constitui não é a nossa escolha de pai, mãe, irmãos e todos os graus de parentescos conseqüentes, e, mesmo na família, onde os laços de consangüinidade deveriam definir relacionamentos iguais, temos, por escolha natural, aqueles com quem devotamos maior ou menor afinidade . Daí por diante estamos, sempre, submetidos a algumas relações necessárias e outras que por afinidade que descobrimos no curso destas ditas .

Nossos vizinhos são contingências necessárias; mas elegemos entre estes aqueles com quem vamos relacionar-nos mais freqüentemente. Na empresa, na escola, no transporte público que fazemos uso todos os dias, enfim, este binômio há de estar presente sempre em nossas relações.

Na maçonaria não seria diferente. Somos todos irmãos. Somos todos regidos por laços fraternos onde a trinômio Liberdade, Igualdade e Fraternidade é o tripé que, por conceito, nos identifica. Mesmo assim, com a igualdade prevalente, temos aqueles com quem mais nos identificamos e daí criamos relacionamentos afetivos que ultrapassam o limite da instituição.

Este tripé, entretanto, como conceito, deve ser entendido com razoável análise de prevalência, no sentido de se evitar o simplismo e cometermos o desleixo intelectual de concebermos conceitos diversos daqueles a que por princípio foram aplicados.

A propósito da IGUALDADE vale lembrar o pensamento vivo de Rui Barbosa, que foi iniciado maçom na Loja AMÉRICA, a 1º. de julho de 1869 em Salvador, no qual desmistifica-se a visão pueril do vocábulo, dando-lhe a abrangência e compreensão necessárias à sua boa e justa aplicação no mundo profano e maçônico. Vejamos, então, a harmonia da IGUALDADE na convicção conceituado de nosso amado irmão RUI BARBOSA, ao discursar na célebre “Oração aos Moços”, que trata-se de um discurso escrito, pois convidado em 1920 para paraninfo da turma de direto da Faculdade de Direito de São Paulo, aos formandos, como não pode estar presente na cerimônia de formatura, deixou seu texto para ser lido.

. . .“Não há, no universo, duas coisas iguais. Muitas se parecem umas às outras. Mas todas entre si diversificam. Os ramos de uma só árvore, as folhas da mesma planta, os traços da polpa de um dedo humano, as gotas do mesmo fluido, os argueiros do mesmo pó, as raias do espectro de um só raio solar ou estelar.

A regra da igualdade não consiste senão em quinhoar desigualmente os desiguais, na medida em que se desigualam. Nesta desigualdade social, proporcionada à desigualdade natural é que se acha a verdadeira lei da igualdade. O mais são desvarios da inveja, do orgulho ou da loucura. Tratar com desigualdade a iguais, ou a desiguais com igualdade, seria desigualdade flagrante, e não igualdade real. Os apetites humanos conceberam inverter a norma universal da criação, pretendendo não dar a cada um na razão do que vale, mas atribuir o mesmo a todos, como se todos se equivalessem.

Esta blasfêmia contra a razão e a fé, contra a civilização e a humanidade, é a filosofia da miséria, proclamada em nome dos direitos do trabalho; e, executada, não faria senão inaugurar, em vez da supremacia do trabalho, a organização da miséria.
Mas, se a sociedade não pode igualar os que a natureza criou desiguais, cada um, nos limites da sua energia moral, pode reagir sobre as desigualdades nativas, pela educação, atividade e perseverança. Tal a missão do trabalho”.

Devemos, pois, a partir desta premissa de inigualável saber divino, social, humanitário, jurídico e maçônico, mensurar com mais acuidade nossas posições enquanto executores por excelência da bondade; enquanto promotores da justiça fraterna; enquanto oradores de púlpito de nossas convicções maçônicas.

Esta necessidade de melhor compreender o outro, dadas as desigualdades naturais, e necessárias a condição de indivíduo ( o que torna cada um de nós únicos ) que somos, é que põe à prova este real espírito maçônico a que estamos obrigados, todos os iniciados, aos sermos escolhidos maçons e livremente termos aceito esta condição. Mesmo assim, escolhidos, e por livre e espontânea vontade aceitos, no seio de nossas lojas, na intimidade de nossas convicções, nossas relações ainda vão estar sujeitas ao binômio necessidade & afinidade. Estamos ligados pelos juramentos; estamos sujeitos a Constituição para o “dever ser” que é o sujeito ativo da obrigação de fazer, que é princípio constitucional a que estamos obrigados, preferencialmente, ao dever do tratamento assistencial, cavalheiro, cordial, generosos e carinhosos com todos os nossos Ir.’., Cun.’. e Sob.’. e que por regra geral se aplica a todos os homens, na visão teleológica do G.’. A.’. D.’. U.’..

Entretanto, nossas relações de carinho e afeição aos mais desenvoltos pelo estudo e aprimoramento do saber maçônico, estas, ultrapassarão os limites físicos da Sala dos Passos Perdidos, no Templo, e estarão presentes no cotidianos do seio de nossas famílias profanas e no dia a dia de nossas atividades, onde, verdadeiramente a MAÇONARIA é exercida em sua plenitude.

T.’. F.’. A.’.

A Propósito da Democracia

A Propósito da Democracia


Caro Jornalista,

Sou um caboclo amazônida, nem mais nem menos entre tantos de formação étnica comprometida pela dolência de nossos ancestrais nativos, de índios (escravos) africanos, portugueses escravocratas e espanhóis ladrões. Nem mais, nem menos. A mim ainda foi agregado sangue turco – não sei se isto atenua ou agrava a minha sucessão genética.

O rugir de suas palavras representam todas as nossas outras contidas pela falta de espaço que você dispõe e dizem plenamente da nossa indignação. Para seu pezar e contentamento dos canalhas referenciados, infelizmente, nada significam. Mero discurso perdido entre tantos outros de igual valor e qualidade. Como no velho adágio, “os cães ladram e a carruagem passa”. Em nosso caso com uma mudança significativa: “os cães ladram, a carruagem para, joga algumas migalhas e passa”. Alguns cães, como nós, que vociferamos mais veementemente, aproveitam-se da breve parada para irrigar-lhes as rodas com nossa desprezível urina e com isto vangloriamos-nos garbosamente do feito.

Quão inútil somos!

Eis a democracia, meu caro jornalista: meu bem, meu mal. Ei-la, poderosa, na plenitude de seus mais profundos fundamentos, onde a maioria, no pleno exercício de seus direitos políticos elege seus governantes. O que não ficou claro na “criação de tal projeto”, a democracia, pelos nossos gregos de plantão à época deste antecipado iluminismo, é se no caso de tamanha e desqualificada maioria (nosso caso) , seriam os mesmos os princípios a serem seguidos. Hoje, distantes do princípio criador, na América do Sul, do lado de baixo do equador, no Brasil (quanta seqüência de azares demográficos), aquilo que deveria ser a mais perfeita manifestação de governabilidade transforma-se em cruel constatação de injustiças no desfilar diuturno dos escândalos palacianos.

Parece-me que a Revolução Francesa tem algo a nos ensinar. Mas onde estão Robespierre e Rousseau ? Quem vai nos defender deste real “massacre do Campo de Marte” a que estamos sendo conduzidos por esta sintonizada orquestra de nossos “Luiz XVI” ???? Não os vejo.

Eis, meu caro jornalista, a perpetuação da miséria humana, pela via do voto.

A PROPÓSITO DO HAITI E DE OUTROS TERREMOTOS NA AMÉRICA.

A PROPÓSITO DO HAITI E DE OUTROS TERREMOTOS NA AMÉRICA.



Recolho-me calado diante da minha incapacidade de compreender as tragédias e as ações humanas a partir destas. Vejamos o caso do Haiti. Poderia ser qualquer outra, dos “tsunamis” ou terremotos outros. Enfim, a história nos conta centenas de casos iguais e de como o mundo se mobiliza para o auxílio das vítimas. Forças Tarefas são enviadas, agasalhos, comida, remédios, helicópteros; famosos (Travolta, Scarlett Johansson) vão pilotando seus jatinhos particulares levar leite e cobertores; presidentes (Lula, Obama) fazem discursos inflamados de solidariedade; compositores e músicos (Kirk Franklin, Jeremy Camp) criam letras de músicas para sensibilizar o mundo pela música. Enfim, eis a solidariedade humana!

Enquanto isto séculos de destruição e morte somam-se no dia-a-dia de brasileiros, venezuelanos, bolivianos, hondurenhos, enfim, apenas para citar a tão propalada América dos sonhos. Políticos sujos, corruptos e ladrões se revezam no poder, perpetuando a miséria humana pela fome, pelo desemprego, pela insegurança, pela má educação; promovendo a morte, não sob os escombros de um terremoto, mas sob os restos de uma sociedade falida para as maiorias de miseráveis sem saber, sem nome e sem esperança.

O mundo precisa apurar os ouvidos para o ensurdecedor ruído deste terremoto que não se mede pela “Escala Richter”; é preciso destronar estes “Senhores da Guerra” fria, suja, imunda de corrupção e dor. Não é possível mais assistirmos de braços cruzados esta falsa democracia crescer aos níveis que chegou. A natureza que nos privilegiou com a ausência das fissuras tectônicas não foi tão benevolente assim com os nossos governantes, onde a fissura moral trinca por inteiro o caráter destes canalhas e causa muito mais estragos na vida dos homens que qualquer terremoto destes que tanta mobilização causam.

Isto não torna menor a realidade de nossos irmãos haitianos, não significa ignorar sua dor e nem negligenciar na ajuda humanitária. Não. Isto significa que devemos estar atentos a estes outros terremotos que nos assolam há séculos e para os quais nenhuma ação mundial foi tomada para combatê-los.

Sinto-me num discurso perdido entre tantos outros de igual valor e qualidade. Como no velho adágio, “os cães ladram e a carruagem passa”. Em nosso caso com uma mudança significativa: “os cães ladram, a carruagem para, joga algumas migalhas e passa”. Alguns cães, como nós, que vociferamos mais veementemente, aproveitam-se da breve parada para irrigar-lhes as rodas com a desprezível urina e com isto vangloriar-se garbosamente do feito.

Eis a democracia desta outra América: meu bem, meu mal. Ei-la, poderosa, na plenitude de seus mais profundos fundamentos, onde a maioria, no pleno exercício de seus direitos políticos elege seus governantes, seus pares. Aquilo que deveria ser a mais perfeita manifestação de liberdade transforma-se em cruel constatação de injustiças no desfilar diuturno dos escândalos palacianos bem mais devastadores para o povo que um terremoto.

Estamos soterrados sob séculos de corrupção; sob os escombros da moral e ética públicas; atolados até o pescoço na insegurança, na má cultura e má educação; asfixiados de bolsas assistencialistas por todos os lados. Agonizantes.

Socorro! Help! Hilfe! Aider! Βοήθεια! Cabhair! Aiuto! Pomoc! Помощь! 帮助! ヘルプ!

Olá – Alguém ouviu ????????????

sexta-feira, abril 16, 2010

Voltando ao Blogger. . .

Nasceram Leonardo e Letícia, a família cresceu . . .

sábado, setembro 03, 2005

João e eu

Férias de Julho em Alter do Chão, João ( meu neto ) e eu. . .haja emoção.

sexta-feira, setembro 02, 2005

A globalização da Injustiça

Caros Amigos,

Ao me propor encaminhar o texto anexo, pela via da mão dupla que me faz receber diariamente inúmeros e-mails que tratam deste ou daquele assunto, via de regra voltados para a paz do espírito, através de mantras orientais, sirvo-me para contribuir com algo mais próprio, real, palpável e significativamente cotidiano, principalmente entre aqueles que fazem uso daquele outro cotidiano, onde reinam a fome, a miséria e solidão social entre outras formas de injustiça dissimulada sob a alcunha de crise econômica, nos cinturões periféricos de nossas cidades, principalmente.

Eclodiu agora com o PT, pois é sabido e certo que esta roubalheira política é histórica desde D. João VI, o reconhecimento flagrante de que somos, também, protagonistas como vilões na história da humanidade ao seguirmos o nazismo alemão e seus milhares de mortos nos campos de concentração: aqui morre-se sem teto, sem terra, sem comida, sem emprego, sem auto-estima e sem dignidade, não em pequenos campos, mas concentrados num continente chamado BRASIL, numa prolongada vida com anos e anos de tortura, salvos, graciosamente, os mais afortunados, por uma bala perdida. A diferença é que torturamos matando à míngua o nosso próprio povo.

E exatamente por vivermos este momento de flagrantes na crítica situação política no Brasil, que trocando em miúdos reverte-se em crítica situação econômica, pois estes desvios financeiros é que tornam possível a continuidade da fome, da prostituição infantil, do tráfico de drogas e armas que municiam a violência, via desemprego, neste vai e vem de injustiças generalizadas, que cai bem a leitura de Saramago.

Bom proveito.


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Este mundo da injustiça globalizada
José Saramago



Começarei por vos contar em brevíssimas palavras um fato notável da vida camponesa ocorrido numa aldeia dos arredores de Florença há mais de quatrocentos anos. Permito-me pedir toda a vossa atenção para este importante acontecimento histórico porque, ao contrário do que é corrente, a lição moral extraível do episódio não terá de esperar o fim do relato, saltar-vos-á ao rosto não tarda.

Estavam os habitantes nas suas casas ou a trabalhar nos cultivos, entregue cada um aos seus afazeres e cuidados, quando de súbito se ouviu soar o sino da igreja. Naqueles piedosos tempos (estamos a falar de algo sucedido no século XVI) os sinos tocavam várias vezes ao longo do dia, e por esse lado não deveria haver motivo de estranheza, porém aquele sino dobrava melancolicamente a finados, e isso, sim, era surpreendente, uma vez que não constava que alguém da aldeia se encontrasse em vias de passamento. Saíram portanto as mulheres à rua, juntaram-se as crianças, deixaram os homens as lavouras e os mesteres, e em pouco tempo estavam todos reunidos no adro da igreja, à espera de que lhes dissessem a quem deveriam chorar.

O sino ainda tocou por alguns minutos mais, finalmente calou-se. Instantes depois a porta abria-se e um camponês aparecia no limiar. Ora, não sendo este o homem encarregado de tocar habitualmente o sino, compreende-se que os vizinhos lhe tenham perguntado onde se encontrava o sineiro e quem era o morto. "O sineiro não está aqui, eu é que toquei o sino", foi a resposta do camponês. "Mas então não morreu ninguém?", tornaram os vizinhos, e o camponês respondeu: "Ninguém que tivesse nome e figura de gente, toquei a finados pela Justiça porque a Justiça está morta."

Que acontecera? Acontecera que o ganancioso senhor do lugar (algum conde ou marquês sem escrúpulos) andava desde há tempos a mudar de sítio os marcos das estremas das suas terras, metendo-os para dentro da pequena parcela do camponês, mais e mais reduzida a cada avançada. O lesado tinha começado por protestar e reclamar, depois implorou compaixão, e finalmente resolveu queixar-se às autoridades e acolher-se à proteção da justiça. Tudo sem resultado, a expoliação continuou. Então, desesperado, decidiu anunciar urbi et orbi (uma aldeia tem o exato tamanho do mundo para quem sempre nela viveu) a morte da Justiça. Talvez pensasse que o seu gesto de exaltada indignação lograria comover e pôr a tocar todos os sinos do universo, sem diferença de raças, credos e costumes, que todos eles, sem exceção, o acompanhariam no dobre a finados pela morte da Justiça, e não se calariam até que ela fosse ressuscitada.

Um clamor tal, voando de casa em casa, de aldeia em aldeia, de cidade em cidade, saltando por cima das fronteiras, lançando pontes sonoras sobre os rios e os mares, por força haveria de acordar o mundo adormecido... Não sei o que sucedeu depois, não sei se o braço popular foi ajudar o camponês a repor as estremas nos seus sítios, ou se os vizinhos, uma vez que a Justiça havia sido declarada defunta, regressaram resignados, de cabeça baixa e alma sucumbida, à triste vida de todos os dias. É bem certo que a História nunca nos conta tudo...

Suponho ter sido esta a única vez que, em qualquer parte do mundo, um sino, uma campânula de bronze inerte, depois de tanto haver dobrado pela morte de seres humanos, chorou a morte da Justiça. Nunca mais tornou a ouvir-se aquele fúnebre dobre da aldeia de Florença, mas a Justiça continuou e continua a morrer todos os dias. Agora mesmo, neste instante em que vos falo, longe ou aqui ao lado, à porta da nossa casa, alguém a está matando. De cada vez que morre, é como se afinal nunca tivesse existido para aqueles que nela tinham confiado, para aqueles que dela esperavam o que da Justiça todos temos o direito de esperar: justiça, simplesmente justiça. Não a que se envolve em túnicas de teatro e nos confunde com flores de vã retórica judicialista, não a que permitiu que lhe vendassem os olhos e viciassem os pesos da balança, não a da espada que sempre corta mais para um lado que para o outro, mas uma justiça pedestre, uma justiça companheira quotidiana dos homens, uma justiça para quem o justo seria o mais exato e rigoroso sinônimo do ético, uma justiça que chegasse a ser tão indispensável à felicidade do espírito como indispensável à vida é o alimento do corpo. Uma justiça exercida pelos tribunais, sem dúvida, sempre que a isso os determinasse a lei, mas também, e sobretudo, uma justiça que fosse a emanação espontânea da própria sociedade em ação, uma justiça em que se manifestasse, como um iniludível imperativo moral, o respeito pelo direito a ser que a cada ser humano assiste.

Mas os sinos, felizmente, não tocavam apenas para planger aqueles que morriam. Tocavam também para assinalar as horas do dia e da noite, para chamar à festa ou à devoção dos crentes, e houve um tempo, não tão distante assim, em que o seu toque a rebate era o que convocava o povo para acudir às catástrofes, às cheias e aos incêndios, aos desastres, a qualquer perigo que ameaçasse a comunidade. Hoje, o papel social dos sinos encontra-se limitado ao cumprimento das obrigações rituais e o gesto iluminado do camponês de Florença seria visto como obra desatinada de um louco ou, pior ainda, como simples caso de polícia. Outros e diferentes são os sinos que hoje defendem e afirmam a possibilidade, enfim, da implantação no mundo daquela justiça companheira dos homens, daquela justiça que é condição da felicidade do espírito e até, por mais surpreendente que possa parecer-nos, condição do próprio alimento do corpo.

Houvesse essa justiça, e nem um só ser humano mais morreria de fome ou de tantas doenças que são curáveis para uns, mas não para outros. Houvesse essa justiça, e a existência não seria, para mais de metade da humanidade, a condenação terrível que objetivamente tem sido. Esses sinos novos cuja voz se vem espalhando, cada vez mais forte, por todo o mundo são os múltiplos movimentos de resistência e ação social que pugnam pelo estabelecimento de uma nova justiça distributiva e comutativa que todos os seres humanos possam chegar a reconhecer como intrinsecamente sua, uma justiça protetora da liberdade e do direito, não de nenhuma das suas negações.

Tenho dito que para essa justiça dispomos já de um código de aplicação prática ao alcance de qualquer compreensão, e que esse código se encontra consignado desde há cinqüenta anos na Declaração Universal dos Direitos Humanos, aquelas trinta direitos básicos e essenciais de que hoje só vagamente se fala, quando não sistematicamente se silencia, mais desprezados e conspurcados nestes dias do que o foram, há quatrocentos anos, a propriedade e a liberdade do camponês de Florença. E também tenho dito que a Declaração Universal dos Direitos Humanos, tal qual se encontra redigida, e sem necessidade de lhe alterar sequer uma vírgula, poderia substituir com vantagem, no que respeita a retidão de princípios e clareza de objetivos, os programas de todos os partidos políticos do orbe, nomeadamente os da denominada esquerda, anquilosados em fórmulas caducas, alheios ou impotentes para enfrentar as realidades brutais do mundo atual, fechando os olhos às já evidentes e temíveis ameaças que o futuro está a preparar contra aquela dignidade racional e sensível que imaginávamos ser a suprema aspiração dos seres humanos.

Acrescentarei que as mesmas razões que me levam a referir-me nestes termos aos partidos políticos em geral, as aplico por igual aos sindicatos locais, e, em conseqüência, ao movimento sindical internacional no seu conjunto. De um modo consciente ou inconsciente, o dócil e burocratizado sindicalismo que hoje nos resta é, em grande parte, responsável pelo adormecimento social decorrente do processo de globalização econômica em curso. Não me alegra dizê-lo, mas não poderia calá-lo. E, ainda, se me autorizam a acrescentar algo da minha lavra particular às fábulas de La Fontaine, então direi que, se não interviermos a tempo, isto é, já, o rato dos direitos humanos acabará por ser implacavelmente devorado pelo gato da globalização econômica.

E a democracia, esse milenário invento de uns atenienses ingênuos para quem ela significaria, nas circunstâncias sociais e políticas específicas do tempo, e segundo a expressão consagrada, um governo do povo, pelo povo e para o povo? Ouço muitas vezes argumentar a pessoas sinceras, de boa fé comprovada, e a outras que essa aparência de benignidade têm interesse em simular, que, sendo embora uma evidência indesmentível o estado de catástrofe em que se encontra a maior parte do planeta, será precisamente no quadro de um sistema democrático geral que mais probabilidades teremos de chegar à consecução plena ou ao menos satisfatória dos direitos humanos. Nada mais certo, sob condição de que fosse efetivamente democrático o sistema de governo e de gestão da sociedade a que atualmente vimos chamando democracia. E não o é. É verdade que podemos votar, é verdade que podemos, por delegação da partícula de soberania que se nos reconhece como cidadãos eleitores e normalmente por via partidária, escolher os nossos representantes no parlamento, é verdade, enfim, que da relevância numérica de tais representações e das combinações políticas que a necessidade de uma maioria vier a impor sempre resultará um governo.

Tudo isto é verdade, mas é igualmente verdade que a possibilidade de ação democrática começa e acaba aí. O eleitor poderá tirar do poder um governo que não lhe agrade e pôr outro no seu lugar, mas o seu voto não teve, não tem, nem nunca terá qualquer efeito visível sobre a única e real força que governa o mundo, e portanto o seu país e a sua pessoa: refiro-me, obviamente, ao poder econômico, em particular à parte dele, sempre em aumento, gerida pelas empresas multinacionais de acordo com estratégias de domínio que nada têm que ver com aquele bem comum a que, por definição, a democracia aspira.

Todos sabemos que é assim, e contudo, por uma espécie de automatismo verbal e mental que não nos deixa ver a nudez crua dos fatos, continuamos a falar de democracia como se se tratasse de algo vivo e atuante, quando dela pouco mais nos resta que um conjunto de formas ritualizadas, os inócuos passes e os gestos de uma espécie de missa laica. E não nos apercebemos, como se para isso não bastasse ter olhos, de que os nossos governos, esses que para o bem ou para o mal elegemos e de que somos portanto os primeiros responsáveis, se vão tornando cada vez mais em meros "comissários políticos" do poder econômico, com a objetiva missão de produzirem as leis que a esse poder convierem, para depois, envolvidas no açúcares da publicidade oficial e particular interessada, serem introduzidas no mercado social sem suscitar demasiados protestos, salvo os certas conhecidas minorias eternamente descontentes...

Que fazer? Da literatura à ecologia, da fuga das galáxias ao efeito de estufa, do tratamento do lixo às congestões do tráfego, tudo se discute neste nosso mundo. Mas o sistema democrático, como se de um dado definitivamente adquirido se tratasse, intocável por natureza até à consumação dos séculos, esse não se discute. Ora, se não estou em erro, se não sou incapaz de somar dois e dois, então, entre tantas outras discussões necessárias ou indispensáveis, é urgente, antes que se nos torne demasiado tarde, promover um debate mundial sobre a democracia e as causas da sua decadência, sobre a intervenção dos cidadãos na vida política e social, sobre as relações entre os Estados e o poder econômico e financeiro mundial, sobre aquilo que afirma e aquilo que nega a democracia, sobre o direito à felicidade e a uma existência digna, sobre as misérias e as esperanças da humanidade, ou, falando com menos retórica, dos simples seres humanos que a compõem, um por um e todos juntos. Não há pior engano do que o daquele que a si mesmo se engana. E assim é que estamos vivendo.

Não tenho mais que dizer. Ou sim, apenas uma palavra para pedir um instante de silêncio. O camponês de Florença acaba de subir uma vez mais à torre da igreja, o sino vai tocar. Ouçamo-lo, por favor.