quarta-feira, dezembro 31, 2025

CONSCIÊNCIA COMO OBJETO DE PERCEPÇÃO, NÃO ÉTICA, NÃO MORAL, NÃO VALORATIVA

 

Um tratado a partir da Obra O Segredo Final, Dan Brown.


A consciência, embora frequentemente definida como a capacidade de perceber a si mesmo e ao mundo, revela-se um fenômeno muito mais complexo do que uma simples experiência subjetiva. Ela é, antes de tudo, a vivência íntima da própria existência: o fato de haver um “eu” que sente, pensa, reconhece, integra estímulos, pondera e reflete. Não se limita a perceber o ambiente, mas articula significados, interpretações, valores e formas de presença. Contudo, essa mesma profundidade que constitui o cerne da consciência também a torna inevitavelmente influenciada pela formação, pelos sentidos, pelas crenças e pelo repertório intelectual de cada indivíduo, o que introduz um componente de subjetividade que não pode ser ignorado. Ainda assim, essa subjetividade não reduz a consciência a algo arbitrário; ela continua a ser uma faculdade real e estruturante da condição humana, apenas colorida pelas circunstâncias interiores e exteriores que moldam cada ser.

É justamente essa natureza integrada e dinâmica da consciência — sempre se expandindo, amadurecendo e aprofundando — que permite ao indivíduo corrigir percepções distorcidas, rever caminhos, aperfeiçoar entendimentos e ampliar sua visão de mundo. Porém, esse movimento de aperfeiçoamento não é inerentemente moral. A consciência, enquanto faculdade fenomenológica, não traz em si um compromisso obrigatório com o bem; ela apenas aperfeiçoa a capacidade de perceber, refletir e agir com lucidez. E é dessa constatação que nasce uma verdade incômoda, mas inegável: a mesma consciência que faz o ser humano ascender às mais elevadas esferas de virtude pode também torná-lo mais hábil em suas inclinações destrutivas. A capacidade de perceber com clareza, compreender mecanismos psicológicos, analisar minúcias e agir com precisão pode ser orientada tanto para o bem quanto para o mal — e há incontáveis exemplos históricos de indivíduos profundamente conscientes que, no entanto, utilizaram essa lucidez para finalidades sombrias.

Esse paradoxo só se resolve quando distinguimos consciência de consciência moral. A primeira é a base: o simples estar desperto para si e para o mundo. A segunda é o eixo: a capacidade de avaliar ações segundo princípios que transcendem a subjetividade individual. Sem esse eixo, a consciência torna-se uma ferramenta poderosa, porém eticamente indeterminada; com ele, transforma-se em instrumento de construção, justiça e elevação. Assim, o “mal objetivo”, entendido como aquilo que causa danos injustificados, fere a dignidade e se opõe à harmonia da vida, pode sim ser alcançado com requinte por uma consciência aprimorada, desde que essa consciência não tenha sido ancorada em um critério ético ou espiritual universal.

Dessa forma, compreender a consciência é perceber que, embora seja profundamente pessoal, não é arbitrária; embora permita aperfeiçoamento, não garante bondade; embora seja a luz interior do ser humano, pode iluminar tanto caminhos de ascensão quanto de queda. O que define sua direção não é a clareza de percepção em si, mas o princípio que a orienta. Somente quando a consciência se une a valores que transcendam o indivíduo — sejam eles filosóficos, espirituais ou humanistas — ela se torna não apenas lúcida, mas justa. Sem essa união, permanece apenas como uma força, neutra e potente, capaz de produzir tanto o mais elevado bem quanto o mais refinado mal.

 

CONSCIÊNCIA A PARTIR “O SEGREDO FINAL (Dan Brown)” – FICÇÃO CIÊNCIA, MISTICISMO E FILOSOFIA.

 

Em O Segredo Final, Dan Brown adota uma postura “fictícia-científica-metafísica” para a consciência. A personagem Katherine Solomon é uma cientista noética que argumenta que a consciência não é produzida pelo cérebro, mas que o cérebro funciona como uma antena ou receptor para alguma forma de consciência mais ampla, não localizada. Até aí está tudo bem e obedece aos mesmos critérios de formação de conceitos existentes. Essa hipótese agrega, e aí está o acréscimo diferencial, na narrativa do livro, sustentando que a consciência permeia o universo, e os seres humanos captam ou acessam essa “matriz consciente” por meio de seu cérebro.

Para Brown, se essa visão estiver correta, ela tem implicações enormes: ultrapassa o paradigma materialista clássico, onde a mente é um fenômeno do cérebro, e sugere uma revolução tanto científica quanto espiritual. No enredo, esse paradigma ameaça mudar por completo como a humanidade entende a vida, a alma e até Deus.

No clímax da trama, há experimentos em que se induzem experiências fora do corpo, ou estados de consciência onde o cérebro “silencia”, mas a consciência continua ativa e conectada a algo maior. Alguns personagens chegam a descrever uma visão unificada do universo como “uma única mente viva” — ideia muito próxima de tradições filosóficas místicas e de algumas teorias da física teórica ou quântica.

Aqui entra minha particular experiência a propósito dos tais “estados de consciência alterados” e “experiências fora do corpo”. Como caboclo amazônida brasileiro, vivenciei estas “experiências” quando participei ritualisticamente da “comunhão do Santo Daime” e com a “sananga”, um colírio indígena que também permite estes lapsos temporais de alteração do estado de “consciência” (percepção). Fiz uma vez apenas e a vivência disto é absurdamente real, validam-se no pós-ritual e são permanentes em seus resultados para o longo da vida.   

Sob esse olhar ficcional, a “consciência” deixa de ser apenas uma propriedade individual privada para se tornar algo quase cosmológico — um fundamento ontológico: tudo que existe é manifestação de consciência. É uma visão filosófica universal no sentido de que a consciência não é apenas consequência da matéria, mas algo primordial. Também há um forte componente ético e simbólico nessa visão: no livro, a descoberta da verdadeira natureza da consciência é perigosa, porque muda a relação entre ciência, poder e espiritualidade. Se a consciência é algo universal, então os símbolos, as lendas e até figuras religiosas podem estar apontando para essa realidade mais profunda — não apenas metaforicamente, mas literalmente.

Do ponto de vista filosófico, a proposta de Brown dialoga com teorias reais (embora controversas) de ciência noética — um campo que, no mundo real, explora a consciência de maneiras que a ciência tradicional muitas vezes evita. No entanto, é preciso lembrar que é ficção: Brown usa essas teorias para construir um roteiro ficcional, não para fazer um tratado científico. Há liberdade artística, narrativas e dramatização de ideias. Por fim, percebo que Brown está propondo uma síntese entre ciência e espiritualidade: a consciência, no seu romance, não é apenas um mistério da biologia, mas algo sagrado, uma “morada do divino” dentro da mente humana. Essa visão casa muito bem com consciência moral, mal/bem, transcendência — porque ele sugere que o verdadeiro segredo não está em conceitos perdidos, mas na própria estrutura do que significa “ser”.

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